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Brinquedos na Antiguidade

Quando pensamos na Antiguidade, é fácil imaginar pirâmides, templos gigantescos, imperadores romanos, filósofos gregos, guerras e cidades que hoje existem apenas como ruínas. O que quase nunca aparece nessa imagem são as crianças. Elas estavam lá, correndo pelas ruas, fazendo bagunça dentro de casa, brigando com irmãos, imitando os adultos e, claro, brincando. Muito antes das lojas de brinquedos, das fábricas e das propagandas de televisão, já existiam bonecas, carrinhos, bolas, piões, animais em miniatura, jogos de tabuleiro e dezenas de objetos criados exclusivamente para divertir crianças.

E talvez a coisa mais surpreendente seja perceber como algumas brincadeiras mudaram pouco durante milhares de anos. Uma criança do Egito Antigo certamente estranharia um videogame ou um carrinho de controle remoto, mas provavelmente saberia imediatamente o que fazer se alguém colocasse uma bola, uma boneca ou um pião em suas mãos. Os materiais mudaram, as técnicas de fabricação evoluíram e as sociedades desapareceram, mas aquela vontade de transformar objetos simples em mundos inteiros parece acompanhar a humanidade desde sempre.

🏺 Quando brincar também virou parte da História

Durante muito tempo, arqueólogos e historiadores estavam mais interessados em encontrar palácios, armas, moedas, túmulos e objetos religiosos do que pequenos brinquedos. Mas escavações realizadas em diferentes regiões do mundo revelaram algo fascinante: crianças deixaram marcas por toda parte. Pequenas bonecas foram encontradas em tumbas egípcias, animais com rodas apareceram em sítios arqueológicos do Oriente Próximo, piões sobreviveram durante séculos e tabuleiros de jogos foram descobertos dentro de casas e sepultamentos. Muitos desses objetos eram feitos de materiais resistentes, como madeira, argila, pedra, osso, marfim ou metal, e alguns conseguiram atravessar milhares de anos até chegar aos museus atuais.

Existe, porém, uma dificuldade curiosa. Nem sempre é possível saber se determinado objeto antigo era realmente um brinquedo. Uma pequena figura de animal poderia ter sido usada por uma criança durante uma brincadeira, mas também poderia possuir função religiosa, servir como amuleto ou fazer parte de algum ritual. Por isso, os pesquisadores observam o local onde o objeto foi encontrado, sinais de desgaste, inscrições, representações artísticas e outros indícios para tentar descobrir sua verdadeira função. Em alguns casos, milhares de anos depois, continuamos olhando para um pequeno objeto e fazendo exatamente a mesma pergunta que um colecionador faz diante de um brinquedo antigo desconhecido: “Afinal, para que servia isso?”

🐊 Bonecas, animais e brinquedos no Egito Antigo

O Egito Antigo deixou alguns dos exemplos mais interessantes de brinquedos que chegaram até nós. Crianças egípcias brincavam com bonecas feitas de madeira, tecido e outros materiais disponíveis. Algumas possuíam cabelos produzidos com contas ou fios, enquanto outras tinham braços e pernas móveis. Também foram encontrados pequenos animais de madeira com mecanismos simples que permitiam movimentar partes do corpo. Um dos exemplos mais conhecidos é o de brinquedos representando crocodilos com mandíbulas móveis, capazes de abrir e fechar a boca quando manipulados.

As crianças também brincavam com bolas feitas de materiais como couro, fibras vegetais e tecidos preenchidos. Existiam piões, pequenas figuras de animais e objetos que podiam ser puxados pelo chão. É curioso imaginar que, enquanto enormes pirâmides eram construídas e faraós governavam o Egito, alguma criança provavelmente estava sentada no chão tentando fazer um brinquedo funcionar, reclamando porque perdeu uma peça ou discutindo com outra criança porque não queria dividir a boneca. A tecnologia era diferente, mas certas cenas familiares parecem atravessar qualquer época.

🏛️ Na Grécia, brinquedos também ensinavam a viver como adultos

Na Grécia Antiga, brincar fazia parte do cotidiano infantil e muitos brinquedos lembram objetos que continuaram populares durante séculos. Bonecas conhecidas como plangon eram produzidas principalmente em terracota e algumas possuíam braços e pernas articulados. Meninas brincavam com essas figuras, vestiam pequenas roupas e imitavam atividades observadas no mundo adulto. Em determinadas regiões e períodos, existia também o costume de dedicar brinquedos às divindades quando a infância chegava ao fim, marcando simbolicamente a passagem para uma nova etapa da vida.

As crianças gregas também brincavam com piões, bolas, aros, carrinhos em miniatura e pequenos animais. Um dos passatempos mais conhecidos envolvia os astrágalos, pequenos ossos retirados principalmente das articulações de animais. Eles podiam ser lançados e recolhidos em diferentes brincadeiras, funcionando de maneira semelhante às cinco-marias, e também eram utilizados em jogos de sorte. Alguns eram produzidos artificialmente em materiais como bronze, vidro ou terracota. Em uma época sem plástico, pilhas ou componentes eletrônicos, um punhado de pequenos ossos era suficiente para criar competições, regras e horas de diversão.

🏟️ Roma transformou a brincadeira em espetáculo

As crianças romanas herdaram muitas brincadeiras dos gregos e desenvolveram outras próprias. Bonecas articuladas, bolas, piões, aros e miniaturas faziam parte da infância. Alguns brinquedos reproduziam objetos utilizados pelos adultos, incluindo carruagens e animais em miniatura. Assim como acontece hoje, as crianças observavam o mundo ao redor e o transformavam em brincadeira. Soldados, gladiadores, corridas de bigas e animais podiam inspirar pequenas representações e jogos infantis.

Os romanos também eram apaixonados por jogos. Tabuleiros riscados em pedras, degraus e pisos foram encontrados em diferentes locais do antigo Império Romano, mostrando que jogar fazia parte do cotidiano. Crianças e adultos utilizavam dados, peças e tabuleiros para disputar partidas, embora nem sempre seja possível reconstruir exatamente as regras. E provavelmente já existia naquela época aquele jogador que perdia uma partida, discutia durante quinze minutos sobre uma regra e exigia jogar novamente porque “dessa vez foi sorte”.

🎲 Os jogos de tabuleiro são muito mais antigos do que parece

Alguns dos brinquedos e jogos mais antigos conhecidos pela humanidade são tabuleiros. No Egito, o Senet foi praticado durante milhares de anos e exemplares foram encontrados em diferentes contextos arqueológicos, incluindo tumbas. O jogo era disputado sobre um tabuleiro com trinta casas e, ao longo do tempo, adquiriu também significados religiosos relacionados à passagem para o mundo dos mortos. Apesar de existirem reconstruções modernas das regras, os pesquisadores não possuem um manual completo escrito pelos antigos egípcios, o que significa que parte da maneira original de jogar continua sendo estudada.

Na Mesopotâmia existiu outro jogo famoso: o chamado Jogo Real de Ur. Tabuleiros com cerca de 4.500 anos foram encontrados na década de 1920 durante escavações na antiga cidade de Ur, no atual Iraque. A descoberta de uma tabuleta com inscrições cuneiformes ajudou pesquisadores a compreender parte das regras do jogo. Pensar nisso é impressionante. Muito antes do xadrez, do Banco Imobiliário ou do War, pessoas já se sentavam diante de um tabuleiro, movimentavam peças, torciam, competiam e provavelmente reclamavam quando perdiam.

🛞 O brinquedo de rodinhas é quase tão antigo quanto a própria roda

Carrinhos e animais com rodas também aparecem entre os objetos encontrados por arqueólogos em diferentes civilizações antigas. Pequenos cavalos, bois e outros animais produzidos em argila podiam possuir rodas e ser puxados por cordões. Alguns desses objetos foram encontrados em regiões da Mesopotâmia, do Mediterrâneo e em outras partes do mundo antigo.

A ideia é tão simples que continua funcionando milhares de anos depois. Coloque rodas embaixo de alguma coisa, entregue para uma criança e observe. Não importa se é um pequeno animal feito de barro, um caminhão de madeira, uma miniatura de metal ou um carrinho moderno cheio de componentes eletrônicos. Em algum momento, alguém vai empurrar aquilo pelo chão e inventar uma história.

🪀 Piões, bolas e brincadeiras que simplesmente se recusaram a desaparecer

Talvez os brinquedos mais fascinantes da Antiguidade sejam justamente aqueles que continuam existindo. Piões foram encontrados em sítios arqueológicos de diferentes períodos e civilizações. Bolas eram produzidas com couro, fibras, tecidos e outros materiais disponíveis. Aros eram empurrados com bastões pelas ruas e espaços abertos. Bonecas acompanhavam crianças durante anos e podiam ser guardadas, oferecidas aos deuses ou colocadas em sepultamentos.

Milhares de anos depois, continuamos fabricando versões desses mesmos objetos. O pião ganhou novos materiais e mecanismos. A bola passou a ser produzida industrialmente em dezenas de formatos. A boneca ganhou olhos que fecham, voz, movimentos e acessórios. O carrinho ganhou motor, controle remoto e sensores. Mas a ideia fundamental permanece praticamente a mesma.

❤️ Antes da indústria do brinquedo, já existia a indústria da imaginação

Hoje, brinquedos são desenvolvidos por equipes de designers, engenheiros, especialistas em marketing e grandes empresas que produzem milhões de unidades. Na Antiguidade, muitos eram feitos dentro das próprias famílias, por artesãos locais ou pelas próprias crianças. Um pedaço de madeira podia virar um animal. Argila podia se transformar em uma boneca. Ossos serviam para criar jogos. Pedras riscadas no chão podiam se transformar em tabuleiros.

Talvez seja essa a maior ligação entre uma criança que viveu há quatro mil anos e uma criança de hoje. Brinquedos nunca foram apenas objetos. Eles servem para inventar histórias, imitar o mundo dos adultos, competir, aprender regras, desenvolver habilidades e, principalmente, passar o tempo fazendo aquilo que crianças sempre fizeram.

Brincar.

Impérios surgiram e desapareceram. Línguas deixaram de ser faladas. Cidades inteiras foram abandonadas. Reis, faraós e imperadores viraram personagens dos livros de História.

Mas em algum museu, dentro de uma vitrine, existe uma pequena boneca de madeira, um animal de barro com rodas ou um pião gasto pelo tempo.

E talvez aquele objeto tenha sobrevivido milhares de anos para nos lembrar de uma coisa muito simples.

Antes de construir pirâmides, conquistar territórios e escrever livros de História, a humanidade já sabia brincar.

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Brinquedos “do Paraguai”

Quem cresceu no Brasil durante os anos 80 e 90 provavelmente ouviu essa frase pelo menos uma vez: “Isso veio do Paraguai.” Dependendo do objeto que aparecia na sua frente, aquela informação podia provocar duas reações completamente diferentes. Se fosse um rádio que parava de funcionar depois de três dias, alguém imediatamente dizia que era porque tinha vindo do Paraguai. Mas se fosse um videogame, um carrinho de controle remoto, um boneco diferente de tudo que existia nas lojas brasileiras ou algum brinquedo eletrônico cheio de luzes e sons, a reação era outra: “Caramba! Compraram no Paraguai!” Durante muitos anos, o país ocupou um lugar quase mítico no imaginário de milhões de brasileiros. Era o lugar onde existiam produtos que não chegavam oficialmente ao Brasil, novidades eletrônicas que pareciam ter vindo do futuro e, principalmente, brinquedos que faziam qualquer criança parar diante de uma sacola trazida de viagem e esperar ansiosamente para descobrir o que havia lá dentro.

🛍️ O Paraguai que existia na imaginação das crianças

Para uma criança brasileira dos anos 80, falar em Paraguai não significava necessariamente pensar em outro país, sua história ou sua cultura. Paraguai era sinônimo de compras. Mais especificamente, era aquele lugar distante de onde os adultos voltavam carregando caixas, sacolas e histórias sobre lojas gigantescas cheias de produtos inacreditáveis. O grande destino desse comércio era Ciudad del Este, cidade localizada na fronteira com Foz do Iguaçu. Todos os dias, milhares de brasileiros atravessavam a Ponte da Amizade em busca de eletrônicos, perfumes, relógios, câmeras fotográficas, equipamentos de som, videogames e brinquedos. Para quem nunca fez aquela viagem, o Paraguai era conhecido pelas histórias de parentes, amigos e vizinhos. Sempre existia alguém que tinha ido até lá e voltado com alguma coisa diferente: um tio aparecia com um rádio portátil, um vizinho comprava um aparelho de som, um amigo surgia com um videogame que ninguém conhecia e havia também aquele colega de escola que, depois das férias, aparecia com um brinquedo absolutamente espetacular e respondia com naturalidade quando alguém perguntava onde tinha comprado: “Meu pai trouxe do Paraguai.”

🎮 Videogames, clones e os misteriosos cartuchos com milhares de jogos

Talvez nenhum produto represente melhor essa época do que os videogames. Durante os anos 80 e principalmente nos anos 90, o Paraguai tornou-se uma das principais portas de entrada para consoles, cartuchos e acessórios que chegavam às mãos dos consumidores brasileiros. Era possível encontrar aparelhos originais, versões destinadas a diferentes mercados internacionais e uma quantidade impressionante de clones compatíveis com sistemas famosos. Alguns tinham formatos parecidos com os consoles conhecidos; outros pareciam ter sido projetados por alguém que colocou cinco videogames diferentes em uma caixa, misturou tudo e decidiu que estava pronto. E havia os cartuchos que prometiam dezenas, centenas e até milhares de jogos: “100 em 1”, “500 em 1”, “9999 em 1”. A criança colocava o cartucho no videogame esperando encontrar uma biblioteca maior do que todas as locadoras do bairro juntas e descobria que havia algumas dezenas de títulos repetidos, versões em que o personagem começava com mais vidas e outras em que a partida simplesmente começava em uma fase diferente. Mas ninguém parecia se importar muito. Aquele cartucho tinha uma lista enorme de jogos, uma etiqueta colorida e, muitas vezes, havia atravessado a fronteira dentro de uma sacola. Isso já era suficiente para torná-lo especial.

🚗 O império dos carrinhos de controle remoto

Se havia um brinquedo capaz de provocar inveja imediata entre as crianças, era o carrinho de controle remoto trazido do Paraguai. Nas lojas brasileiras existiam modelos excelentes produzidos por grandes fabricantes nacionais, mas o mercado paraguaio oferecia uma variedade enorme de veículos importados, muitos deles vendidos por preços mais acessíveis. Havia carros esportivos, jipes, caminhões, veículos de polícia e modelos que acendiam faróis, faziam barulho e executavam movimentos que pareciam tecnologicamente avançadíssimos para uma criança daquela época. Alguns eram ótimos e duravam anos. Outros começavam a apresentar comportamentos estranhos poucas horas depois de sair da caixa: o carro virava para a direita, mas não voltava para a esquerda; o controle só funcionava quando estava praticamente encostado no brinquedo; a antena quebrava; a bateria durava sete minutos depois de carregar durante uma tarde inteira. Mesmo assim, durante aqueles sete minutos, ninguém era mais feliz.

🤖 Robôs, pistolas eletrônicas e brinquedos que ninguém sabia quem fabricava

Outra característica marcante dos brinquedos trazidos do Paraguai era a quantidade de produtos de fabricantes desconhecidos. Muitas vezes, ninguém sabia exatamente qual era a marca. O nome estava escrito em inglês, japonês ou em alguma combinação de letras que parecia ter sido inventada exclusivamente para ocupar espaço na embalagem. Isso não diminuía em nada o encanto. Robôs que andavam, acendiam luzes e faziam barulhos eletrônicos eram extremamente populares. Alguns soltavam fumaça, outros movimentavam os braços e havia aqueles que caminhavam alguns centímetros, encontravam uma parede e continuavam tentando atravessá-la até alguém desligar. Também havia pistolas espaciais com luzes, metralhadoras eletrônicas, telefones infantis, máquinas fotográficas de brinquedo, relógios digitais, pequenos instrumentos musicais, bichos movidos a pilha e dezenas de invenções que pareciam ter sido criadas com um único objetivo: fazer barulho dentro de casa. As embalagens eram uma atração à parte, com fotografias exageradas, ilustrações de batalhas espaciais, crianças sorrindo como se tivessem acabado de ganhar o melhor brinquedo da história e frases em inglês que quase ninguém entendia. Às vezes, o brinquedo real tinha pouca relação com aquilo que aparecia na caixa, mas abrir aquela embalagem continuava sendo uma aventura.

🦸 Quando os heróis conhecidos ganhavam parentes desconhecidos

O mercado de brinquedos importados também criou um fenômeno inesquecível: os personagens que pareciam conhecidos, mas tinham alguma coisa estranha. Era possível encontrar robôs muito parecidos com Transformers que não eram Transformers, bonecos musculosos que lembravam os Comandos em Ação, mas pertenciam a organizações militares completamente desconhecidas, e guerreiros espaciais com espadas luminosas que certamente tinham assistido a Star Wars, embora seus fabricantes jamais admitissem isso. Havia ainda figuras de ação vendidas em cartelas coloridas com personagens que misturavam elementos de vários universos. Um guerreiro medieval podia carregar uma metralhadora, um soldado futurista aparecia montado em um cavalo e um robô transformável virava alguma coisa que ninguém conseguia identificar depois da transformação. Para as crianças, pouco importava. A imaginação resolvia qualquer problema de licenciamento. Se o boneco parecia um Transformer, ele entrava na batalha dos Transformers. Se lembrava um Comando em Ação, imediatamente era recrutado. Se tinha uma espada, podia enfrentar o He-Man. E se não pertencia a universo nenhum, ganhava um nome inventado e participava da brincadeira do mesmo jeito.

📺 Os minigames e a promessa de carregar um fliperama no bolso

Nos anos 90, outro produto começou a aparecer com enorme frequência entre os brinquedos e eletrônicos trazidos do Paraguai: os minigames. Eram aparelhos portáteis que prometiam dezenas, centenas ou milhares de jogos. Muitos utilizavam telas de cristal líquido e traziam versões de Tetris, jogos de corrida, quebra-cabeças e inúmeras variações dos mesmos títulos. Alguns tinham formatos tradicionais, enquanto outros pareciam controles de videogame, naves espaciais, telefones, volantes ou imitações de consoles portáteis famosos. O número de jogos informado na embalagem era sempre impressionante: “9999 jogos!” Ninguém sabia exatamente como nove mil jogos poderiam caber naquele aparelho. Depois de algum tempo, você percebia que apertar um botão para começar em uma fase diferente provavelmente contava como um novo jogo. Mas isso também não importava. Durante semanas, aquele pequeno aparelho era levado para a escola, para a casa dos parentes, para viagens de carro e para qualquer lugar onde fosse possível mostrar aos amigos.

💸 Original, falsificado ou simplesmente barato?

Foi também nessa época que nasceu uma fama que acompanha os produtos vindos do Paraguai até hoje. Para muita gente, qualquer coisa comprada no país era automaticamente considerada falsificada. A realidade era mais complicada. O comércio de Ciudad del Este reunia produtos originais importados legalmente por empresas paraguaias, mercadorias produzidas por fabricantes pouco conhecidos, imitações, produtos sem licença, cópias e falsificações. Tudo isso podia ser encontrado circulando no mesmo gigantesco mercado. Para o consumidor brasileiro, nem sempre era fácil perceber a diferença. Algumas pessoas viajavam procurando produtos originais vendidos por preços mais baixos, outras queriam simplesmente comprar alguma coisa barata e havia também comerciantes que atravessavam a fronteira levando grandes quantidades de mercadorias para revender no Brasil. Essa mistura ajudou a construir a expressão “produto do Paraguai”, que durante anos foi utilizada como sinônimo de produto falsificado ou de baixa qualidade. Mas quem viveu aquela época sabe que a história não era tão simples. Muita coisa excelente veio de lá. E muita porcaria também. Às vezes, as duas coisas estavam na mesma sacola.

😂 A pilha acabava antes da diversão começar

Existe uma lembrança quase universal entre quem teve brinquedos eletrônicos naquela época: as pilhas. Quase tudo precisava delas. Carrinhos, robôs, teclados, pistolas, bichos eletrônicos e dezenas de outros brinquedos consumiam pilhas em uma velocidade impressionante. Alguns produtos exigiam quatro, seis ou até oito pilhas grandes. Você ganhava o brinquedo, abria a caixa, colocava as pilhas e brincava durante algumas horas. No dia seguinte, o robô já caminhava como se estivesse cansado da vida, o som ficava mais lento, as luzes diminuíam e o carrinho de controle remoto perdia velocidade. Começava então a negociação com os pais para comprar pilhas novas. Foi provavelmente nessa época que milhões de crianças brasileiras descobriram que diversão também tinha custo de manutenção.

❤️ Quando uma sacola atravessando a fronteira carregava um pedaço do futuro

Talvez seja difícil explicar para quem cresceu cercado por compras online, entregas internacionais e acesso instantâneo a produtos do mundo inteiro o que significava ganhar um brinquedo trazido do Paraguai nos anos 80 e 90. Hoje você vê um produto fabricado no outro lado do planeta, assiste a dezenas de vídeos sobre ele, compara preços e compra pelo celular. Naquela época era diferente. Você simplesmente não sabia o que existia. Por isso, quando alguém voltava de Ciudad del Este e abria uma sacola cheia de caixas coloridas, havia uma sensação verdadeira de descoberta. Podia ser um videogame desconhecido, um robô barulhento, um carrinho de controle remoto, um minigame com “9999 jogos” ou algum brinquedo estranho que ninguém sabia explicar direito como funcionava.

Não importava muito. Aquilo tinha vindo do Paraguai. E durante alguns minutos, enquanto a embalagem era aberta e todos se aproximavam para ver o que havia dentro, parecia que alguém tinha atravessado a Ponte da Amizade e trazido de volta um pequeno pedaço do futuro.

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Brinquedos Hering: a fábrica de gaitas que entrou para a história dos brinquedos brasileiros

Quem cresceu no Brasil entre as décadas de 60, 70 e 80 viveu uma época em que entrar em uma loja de brinquedos era quase como visitar outro planeta. As prateleiras estavam cheias de caixas coloridas, ilustrações incríveis e brinquedos fabricados por empresas brasileiras que disputavam a atenção das crianças. Algumas dessas marcas atravessaram gerações e continuam conhecidas até hoje. Outras desapareceram com o tempo, deixando para trás produtos que agora sobrevivem em coleções, fotografias antigas e, principalmente, na memória de quem brincou com eles.

A Hering faz parte dessa história. E antes que alguém pense nas famosas camisetas com o símbolo dos dois peixinhos, estamos falando de outra empresa, também nascida em Blumenau, Santa Catarina. Uma indústria que começou fabricando gaitas de boca, tornou-se uma importante fabricante brasileira de instrumentos musicais e, durante uma parte de sua trajetória, entrou também no fascinante mercado dos brinquedos.

🎵 Tudo começou com uma pequena fábrica de gaitas

A história começou em 1923, quando Alfred Hering fundou em Blumenau uma pequena fábrica dedicada à produção de gaitas de boca. Naquela época, grande parte dos instrumentos musicais vendidos no Brasil vinha do exterior, e produzir esse tipo de produto por aqui exigia conhecimento técnico, equipamentos e uma boa dose de coragem empresarial. A fábrica cresceu, ganhou espaço no mercado e, ao longo das décadas seguintes, o nome Hering tornou-se conhecido entre músicos profissionais e amadores.

Com o crescimento da empresa, a produção foi ampliada e diversificada. Em 1946, a fábrica foi transformada em sociedade anônima e passou a utilizar o nome Fábrica de Gaitas Alfredo Hering S.A. Comércio e Indústria. Seus instrumentos chegaram a diferentes regiões do Brasil e também ao mercado internacional. Mas, em algum momento dessa trajetória, a empresa percebeu que toda aquela experiência industrial poderia abrir caminho para outro mercado que crescia rapidamente no país: o dos brinquedos.

🧸 Quando o nome Hering apareceu nas caixas de brinquedos

A partir da segunda metade do século XX, o Brasil viveu um período de grande expansão da indústria nacional de brinquedos. Empresas como Estrela, Trol, Atma, Mimo, Gulliver e tantas outras colocavam nas lojas carrinhos, bonecos, jogos, miniaturas e brinquedos de todos os tipos. Foi nesse cenário que a Hering também passou a produzir brinquedos, aproveitando sua estrutura industrial e sua experiência na fabricação de produtos que exigiam peças metálicas, componentes plásticos, mecanismos e produção em série.

Os brinquedos Hering chegaram às lojas brasileiras e fizeram parte da infância de muita gente, embora a marca nunca tenha alcançado entre o grande público a mesma lembrança de fabricantes gigantes como Estrela e Trol. Hoje acontece algo curioso: algumas pessoas reconhecem determinados brinquedos produzidos pela empresa, lembram de tê-los visto ou até brincado com eles, mas não fazem ideia de quem os fabricava. É aquele clássico momento em que alguém vê uma fotografia antiga e imediatamente diz: “Caramba, eu tinha um desses!”

E talvez esteja justamente aí uma das coisas mais interessantes sobre a Brinquedos Hering. Sua história acabou sendo preservada não apenas em documentos empresariais ou grandes campanhas publicitárias, mas nos próprios objetos que sobreviveram. Brinquedos guardados durante décadas, embalagens encontradas em armários, anúncios publicados em jornais e revistas e peças recuperadas por colecionadores ajudam hoje a reconstruir uma parte dessa trajetória.

🏭 Uma fábrica, muitos brinquedos e uma indústria brasileira em transformação

Naquela época, fabricar brinquedos era muito diferente de simplesmente importar um produto pronto e colocá-lo nas lojas. Era necessário desenvolver moldes, ferramentas, peças, mecanismos, embalagens e linhas de montagem. Por trás de cada brinquedo havia desenhistas, técnicos, ferramenteiros, operadores de máquinas, montadores, pintores e dezenas de outros profissionais envolvidos na produção. A Hering fazia parte desse Brasil industrial que produzia seus próprios objetos de consumo e criava brinquedos destinados a acompanhar a infância de milhares de crianças.

Os produtos eram vendidos em lojas especializadas, magazines, bazares e estabelecimentos comerciais espalhados pelo país. E havia algo quase mágico na relação das crianças com aqueles brinquedos. Não existiam vídeos de unboxing, avaliações na internet ou fotografias em alta resolução mostrando cada detalhe do produto. Muitas vezes, tudo o que uma criança conhecia era a imagem impressa na caixa, um anúncio visto em alguma revista ou alguns segundos de propaganda na televisão. O restante ficava por conta da imaginação.

Para quem ganhou um brinquedo Hering naquela época, pouco importava a história da empresa ou o tamanho da fábrica. Era apenas um brinquedo novo. Um presente de aniversário, uma surpresa de Natal ou aquele objeto desejado durante meses diante de uma vitrine. Décadas depois, porém, esses mesmos brinquedos passaram a ter outro significado. Tornaram-se registros de uma indústria que mudou profundamente e de empresas que, em muitos casos, desapareceram.

🔥 O incêndio que atingiu a fábrica

Em 1979, a história da Hering foi marcada por um grande incêndio em suas instalações industriais em Blumenau. O fogo atingiu a fábrica e provocou enormes prejuízos, representando um duro golpe para uma empresa que havia construído durante décadas uma importante estrutura de produção. Em uma indústria, uma tragédia desse tamanho não significa apenas perder paredes ou produtos que estavam no estoque. Máquinas, ferramentas, matérias-primas, documentos e equipamentos desenvolvidos ao longo de anos também podem desaparecer em poucas horas.

O incêndio tornou-se um episódio marcante na trajetória da Hering, mas a história da empresa não terminou ali. A produção foi retomada e a marca continuou ligada à fabricação de instrumentos musicais, passando posteriormente por mudanças de controle e por novas fases empresariais. A atividade relacionada aos brinquedos, entretanto, acabou ficando como parte de um período específico de sua história, e justamente por isso seus produtos se tornaram cada vez mais interessantes para colecionadores e pesquisadores da indústria brasileira.

🔎 Quando um brinquedo antigo vira uma pequena descoberta

Durante muito tempo, brinquedo velho era apenas brinquedo velho. Quando quebrava, ia para o lixo. Quando a criança crescia, era dado para um irmão, primo ou vizinho. Pouquíssimas famílias guardavam embalagens, manuais e catálogos imaginando que, décadas depois, alguém teria interesse em pesquisar quem havia fabricado aquele produto. Por isso, encontrar hoje um brinquedo Hering conservado, principalmente acompanhado da caixa original, pode ser uma verdadeira descoberta.

Cada exemplar ajuda a contar um pedaço da história. O logotipo impresso na embalagem, o endereço da fábrica, o material utilizado, o desenho do brinquedo e até as instruções de uso revelam informações sobre a época em que ele foi produzido. Para os colecionadores, não se trata apenas de possuir um objeto raro. Existe também o prazer de descobrir a história por trás dele, identificar o período de fabricação e, muitas vezes, encontrar outras pessoas que tiveram aquele mesmo brinquedo na infância.

É curioso pensar que objetos fabricados aos milhares podem se tornar raros simplesmente porque ninguém imaginava que deveriam ser preservados. Foram feitos para brincar, e foi exatamente isso que aconteceu. Caíram no chão, perderam peças, foram esquecidos no quintal, passaram de uma criança para outra e desapareceram. Os poucos que sobreviveram tornaram-se pequenas cápsulas do tempo.

❤️ A fábrica de gaitas que também ajudou a fabricar memórias

A história da Brinquedos Hering é um daqueles capítulos menos conhecidos da indústria brasileira de brinquedos. Uma empresa que começou produzindo gaitas de boca em Blumenau, cresceu, conquistou espaço no mercado de instrumentos musicais e, durante parte de sua trajetória, também colocou brinquedos nas lojas e nos quartos de milhares de crianças.

Talvez você nunca tenha ouvido falar da Brinquedos Hering. Talvez conheça o nome apenas pelas gaitas. Ou talvez aconteça algo muito mais interessante: você pode olhar para a fotografia de um de seus brinquedos e perceber que já teve um deles, brincou na casa de algum amigo ou passou anos vendo aquele objeto guardado na casa dos avós sem nunca saber quem o fabricava.

E essa é uma das coisas mais bonitas dos brinquedos antigos. As fábricas mudam, as empresas desaparecem, os prédios são transformados e as pessoas seguem suas vidas. Mas alguns brinquedos sobrevivem.

Às vezes dentro de uma caixa esquecida no alto de um armário.

Até que alguém encontra, tira a poeira e pergunta:

“Quem fabricou isso?”

E uma história inteira começa novamente.