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Brinquedos “do Paraguai”

Quem cresceu no Brasil durante os anos 80 e 90 provavelmente ouviu essa frase pelo menos uma vez: “Isso veio do Paraguai.” Dependendo do objeto que aparecia na sua frente, aquela informação podia provocar duas reações completamente diferentes. Se fosse um rádio que parava de funcionar depois de três dias, alguém imediatamente dizia que era porque tinha vindo do Paraguai. Mas se fosse um videogame, um carrinho de controle remoto, um boneco diferente de tudo que existia nas lojas brasileiras ou algum brinquedo eletrônico cheio de luzes e sons, a reação era outra: “Caramba! Compraram no Paraguai!” Durante muitos anos, o país ocupou um lugar quase mítico no imaginário de milhões de brasileiros. Era o lugar onde existiam produtos que não chegavam oficialmente ao Brasil, novidades eletrônicas que pareciam ter vindo do futuro e, principalmente, brinquedos que faziam qualquer criança parar diante de uma sacola trazida de viagem e esperar ansiosamente para descobrir o que havia lá dentro.

🛍️ O Paraguai que existia na imaginação das crianças

Para uma criança brasileira dos anos 80, falar em Paraguai não significava necessariamente pensar em outro país, sua história ou sua cultura. Paraguai era sinônimo de compras. Mais especificamente, era aquele lugar distante de onde os adultos voltavam carregando caixas, sacolas e histórias sobre lojas gigantescas cheias de produtos inacreditáveis. O grande destino desse comércio era Ciudad del Este, cidade localizada na fronteira com Foz do Iguaçu. Todos os dias, milhares de brasileiros atravessavam a Ponte da Amizade em busca de eletrônicos, perfumes, relógios, câmeras fotográficas, equipamentos de som, videogames e brinquedos. Para quem nunca fez aquela viagem, o Paraguai era conhecido pelas histórias de parentes, amigos e vizinhos. Sempre existia alguém que tinha ido até lá e voltado com alguma coisa diferente: um tio aparecia com um rádio portátil, um vizinho comprava um aparelho de som, um amigo surgia com um videogame que ninguém conhecia e havia também aquele colega de escola que, depois das férias, aparecia com um brinquedo absolutamente espetacular e respondia com naturalidade quando alguém perguntava onde tinha comprado: “Meu pai trouxe do Paraguai.”

🎮 Videogames, clones e os misteriosos cartuchos com milhares de jogos

Talvez nenhum produto represente melhor essa época do que os videogames. Durante os anos 80 e principalmente nos anos 90, o Paraguai tornou-se uma das principais portas de entrada para consoles, cartuchos e acessórios que chegavam às mãos dos consumidores brasileiros. Era possível encontrar aparelhos originais, versões destinadas a diferentes mercados internacionais e uma quantidade impressionante de clones compatíveis com sistemas famosos. Alguns tinham formatos parecidos com os consoles conhecidos; outros pareciam ter sido projetados por alguém que colocou cinco videogames diferentes em uma caixa, misturou tudo e decidiu que estava pronto. E havia os cartuchos que prometiam dezenas, centenas e até milhares de jogos: “100 em 1”, “500 em 1”, “9999 em 1”. A criança colocava o cartucho no videogame esperando encontrar uma biblioteca maior do que todas as locadoras do bairro juntas e descobria que havia algumas dezenas de títulos repetidos, versões em que o personagem começava com mais vidas e outras em que a partida simplesmente começava em uma fase diferente. Mas ninguém parecia se importar muito. Aquele cartucho tinha uma lista enorme de jogos, uma etiqueta colorida e, muitas vezes, havia atravessado a fronteira dentro de uma sacola. Isso já era suficiente para torná-lo especial.

🚗 O império dos carrinhos de controle remoto

Se havia um brinquedo capaz de provocar inveja imediata entre as crianças, era o carrinho de controle remoto trazido do Paraguai. Nas lojas brasileiras existiam modelos excelentes produzidos por grandes fabricantes nacionais, mas o mercado paraguaio oferecia uma variedade enorme de veículos importados, muitos deles vendidos por preços mais acessíveis. Havia carros esportivos, jipes, caminhões, veículos de polícia e modelos que acendiam faróis, faziam barulho e executavam movimentos que pareciam tecnologicamente avançadíssimos para uma criança daquela época. Alguns eram ótimos e duravam anos. Outros começavam a apresentar comportamentos estranhos poucas horas depois de sair da caixa: o carro virava para a direita, mas não voltava para a esquerda; o controle só funcionava quando estava praticamente encostado no brinquedo; a antena quebrava; a bateria durava sete minutos depois de carregar durante uma tarde inteira. Mesmo assim, durante aqueles sete minutos, ninguém era mais feliz.

🤖 Robôs, pistolas eletrônicas e brinquedos que ninguém sabia quem fabricava

Outra característica marcante dos brinquedos trazidos do Paraguai era a quantidade de produtos de fabricantes desconhecidos. Muitas vezes, ninguém sabia exatamente qual era a marca. O nome estava escrito em inglês, japonês ou em alguma combinação de letras que parecia ter sido inventada exclusivamente para ocupar espaço na embalagem. Isso não diminuía em nada o encanto. Robôs que andavam, acendiam luzes e faziam barulhos eletrônicos eram extremamente populares. Alguns soltavam fumaça, outros movimentavam os braços e havia aqueles que caminhavam alguns centímetros, encontravam uma parede e continuavam tentando atravessá-la até alguém desligar. Também havia pistolas espaciais com luzes, metralhadoras eletrônicas, telefones infantis, máquinas fotográficas de brinquedo, relógios digitais, pequenos instrumentos musicais, bichos movidos a pilha e dezenas de invenções que pareciam ter sido criadas com um único objetivo: fazer barulho dentro de casa. As embalagens eram uma atração à parte, com fotografias exageradas, ilustrações de batalhas espaciais, crianças sorrindo como se tivessem acabado de ganhar o melhor brinquedo da história e frases em inglês que quase ninguém entendia. Às vezes, o brinquedo real tinha pouca relação com aquilo que aparecia na caixa, mas abrir aquela embalagem continuava sendo uma aventura.

🦸 Quando os heróis conhecidos ganhavam parentes desconhecidos

O mercado de brinquedos importados também criou um fenômeno inesquecível: os personagens que pareciam conhecidos, mas tinham alguma coisa estranha. Era possível encontrar robôs muito parecidos com Transformers que não eram Transformers, bonecos musculosos que lembravam os Comandos em Ação, mas pertenciam a organizações militares completamente desconhecidas, e guerreiros espaciais com espadas luminosas que certamente tinham assistido a Star Wars, embora seus fabricantes jamais admitissem isso. Havia ainda figuras de ação vendidas em cartelas coloridas com personagens que misturavam elementos de vários universos. Um guerreiro medieval podia carregar uma metralhadora, um soldado futurista aparecia montado em um cavalo e um robô transformável virava alguma coisa que ninguém conseguia identificar depois da transformação. Para as crianças, pouco importava. A imaginação resolvia qualquer problema de licenciamento. Se o boneco parecia um Transformer, ele entrava na batalha dos Transformers. Se lembrava um Comando em Ação, imediatamente era recrutado. Se tinha uma espada, podia enfrentar o He-Man. E se não pertencia a universo nenhum, ganhava um nome inventado e participava da brincadeira do mesmo jeito.

📺 Os minigames e a promessa de carregar um fliperama no bolso

Nos anos 90, outro produto começou a aparecer com enorme frequência entre os brinquedos e eletrônicos trazidos do Paraguai: os minigames. Eram aparelhos portáteis que prometiam dezenas, centenas ou milhares de jogos. Muitos utilizavam telas de cristal líquido e traziam versões de Tetris, jogos de corrida, quebra-cabeças e inúmeras variações dos mesmos títulos. Alguns tinham formatos tradicionais, enquanto outros pareciam controles de videogame, naves espaciais, telefones, volantes ou imitações de consoles portáteis famosos. O número de jogos informado na embalagem era sempre impressionante: “9999 jogos!” Ninguém sabia exatamente como nove mil jogos poderiam caber naquele aparelho. Depois de algum tempo, você percebia que apertar um botão para começar em uma fase diferente provavelmente contava como um novo jogo. Mas isso também não importava. Durante semanas, aquele pequeno aparelho era levado para a escola, para a casa dos parentes, para viagens de carro e para qualquer lugar onde fosse possível mostrar aos amigos.

💸 Original, falsificado ou simplesmente barato?

Foi também nessa época que nasceu uma fama que acompanha os produtos vindos do Paraguai até hoje. Para muita gente, qualquer coisa comprada no país era automaticamente considerada falsificada. A realidade era mais complicada. O comércio de Ciudad del Este reunia produtos originais importados legalmente por empresas paraguaias, mercadorias produzidas por fabricantes pouco conhecidos, imitações, produtos sem licença, cópias e falsificações. Tudo isso podia ser encontrado circulando no mesmo gigantesco mercado. Para o consumidor brasileiro, nem sempre era fácil perceber a diferença. Algumas pessoas viajavam procurando produtos originais vendidos por preços mais baixos, outras queriam simplesmente comprar alguma coisa barata e havia também comerciantes que atravessavam a fronteira levando grandes quantidades de mercadorias para revender no Brasil. Essa mistura ajudou a construir a expressão “produto do Paraguai”, que durante anos foi utilizada como sinônimo de produto falsificado ou de baixa qualidade. Mas quem viveu aquela época sabe que a história não era tão simples. Muita coisa excelente veio de lá. E muita porcaria também. Às vezes, as duas coisas estavam na mesma sacola.

😂 A pilha acabava antes da diversão começar

Existe uma lembrança quase universal entre quem teve brinquedos eletrônicos naquela época: as pilhas. Quase tudo precisava delas. Carrinhos, robôs, teclados, pistolas, bichos eletrônicos e dezenas de outros brinquedos consumiam pilhas em uma velocidade impressionante. Alguns produtos exigiam quatro, seis ou até oito pilhas grandes. Você ganhava o brinquedo, abria a caixa, colocava as pilhas e brincava durante algumas horas. No dia seguinte, o robô já caminhava como se estivesse cansado da vida, o som ficava mais lento, as luzes diminuíam e o carrinho de controle remoto perdia velocidade. Começava então a negociação com os pais para comprar pilhas novas. Foi provavelmente nessa época que milhões de crianças brasileiras descobriram que diversão também tinha custo de manutenção.

❤️ Quando uma sacola atravessando a fronteira carregava um pedaço do futuro

Talvez seja difícil explicar para quem cresceu cercado por compras online, entregas internacionais e acesso instantâneo a produtos do mundo inteiro o que significava ganhar um brinquedo trazido do Paraguai nos anos 80 e 90. Hoje você vê um produto fabricado no outro lado do planeta, assiste a dezenas de vídeos sobre ele, compara preços e compra pelo celular. Naquela época era diferente. Você simplesmente não sabia o que existia. Por isso, quando alguém voltava de Ciudad del Este e abria uma sacola cheia de caixas coloridas, havia uma sensação verdadeira de descoberta. Podia ser um videogame desconhecido, um robô barulhento, um carrinho de controle remoto, um minigame com “9999 jogos” ou algum brinquedo estranho que ninguém sabia explicar direito como funcionava.

Não importava muito. Aquilo tinha vindo do Paraguai. E durante alguns minutos, enquanto a embalagem era aberta e todos se aproximavam para ver o que havia dentro, parecia que alguém tinha atravessado a Ponte da Amizade e trazido de volta um pequeno pedaço do futuro.