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Brinquedos Hering: a fábrica de gaitas que entrou para a história dos brinquedos brasileiros

Quem cresceu no Brasil entre as décadas de 60, 70 e 80 viveu uma época em que entrar em uma loja de brinquedos era quase como visitar outro planeta. As prateleiras estavam cheias de caixas coloridas, ilustrações incríveis e brinquedos fabricados por empresas brasileiras que disputavam a atenção das crianças. Algumas dessas marcas atravessaram gerações e continuam conhecidas até hoje. Outras desapareceram com o tempo, deixando para trás produtos que agora sobrevivem em coleções, fotografias antigas e, principalmente, na memória de quem brincou com eles.

A Hering faz parte dessa história. E antes que alguém pense nas famosas camisetas com o símbolo dos dois peixinhos, estamos falando de outra empresa, também nascida em Blumenau, Santa Catarina. Uma indústria que começou fabricando gaitas de boca, tornou-se uma importante fabricante brasileira de instrumentos musicais e, durante uma parte de sua trajetória, entrou também no fascinante mercado dos brinquedos.

🎵 Tudo começou com uma pequena fábrica de gaitas

A história começou em 1923, quando Alfred Hering fundou em Blumenau uma pequena fábrica dedicada à produção de gaitas de boca. Naquela época, grande parte dos instrumentos musicais vendidos no Brasil vinha do exterior, e produzir esse tipo de produto por aqui exigia conhecimento técnico, equipamentos e uma boa dose de coragem empresarial. A fábrica cresceu, ganhou espaço no mercado e, ao longo das décadas seguintes, o nome Hering tornou-se conhecido entre músicos profissionais e amadores.

Com o crescimento da empresa, a produção foi ampliada e diversificada. Em 1946, a fábrica foi transformada em sociedade anônima e passou a utilizar o nome Fábrica de Gaitas Alfredo Hering S.A. Comércio e Indústria. Seus instrumentos chegaram a diferentes regiões do Brasil e também ao mercado internacional. Mas, em algum momento dessa trajetória, a empresa percebeu que toda aquela experiência industrial poderia abrir caminho para outro mercado que crescia rapidamente no país: o dos brinquedos.

🧸 Quando o nome Hering apareceu nas caixas de brinquedos

A partir da segunda metade do século XX, o Brasil viveu um período de grande expansão da indústria nacional de brinquedos. Empresas como Estrela, Trol, Atma, Mimo, Gulliver e tantas outras colocavam nas lojas carrinhos, bonecos, jogos, miniaturas e brinquedos de todos os tipos. Foi nesse cenário que a Hering também passou a produzir brinquedos, aproveitando sua estrutura industrial e sua experiência na fabricação de produtos que exigiam peças metálicas, componentes plásticos, mecanismos e produção em série.

Os brinquedos Hering chegaram às lojas brasileiras e fizeram parte da infância de muita gente, embora a marca nunca tenha alcançado entre o grande público a mesma lembrança de fabricantes gigantes como Estrela e Trol. Hoje acontece algo curioso: algumas pessoas reconhecem determinados brinquedos produzidos pela empresa, lembram de tê-los visto ou até brincado com eles, mas não fazem ideia de quem os fabricava. É aquele clássico momento em que alguém vê uma fotografia antiga e imediatamente diz: “Caramba, eu tinha um desses!”

E talvez esteja justamente aí uma das coisas mais interessantes sobre a Brinquedos Hering. Sua história acabou sendo preservada não apenas em documentos empresariais ou grandes campanhas publicitárias, mas nos próprios objetos que sobreviveram. Brinquedos guardados durante décadas, embalagens encontradas em armários, anúncios publicados em jornais e revistas e peças recuperadas por colecionadores ajudam hoje a reconstruir uma parte dessa trajetória.

🏭 Uma fábrica, muitos brinquedos e uma indústria brasileira em transformação

Naquela época, fabricar brinquedos era muito diferente de simplesmente importar um produto pronto e colocá-lo nas lojas. Era necessário desenvolver moldes, ferramentas, peças, mecanismos, embalagens e linhas de montagem. Por trás de cada brinquedo havia desenhistas, técnicos, ferramenteiros, operadores de máquinas, montadores, pintores e dezenas de outros profissionais envolvidos na produção. A Hering fazia parte desse Brasil industrial que produzia seus próprios objetos de consumo e criava brinquedos destinados a acompanhar a infância de milhares de crianças.

Os produtos eram vendidos em lojas especializadas, magazines, bazares e estabelecimentos comerciais espalhados pelo país. E havia algo quase mágico na relação das crianças com aqueles brinquedos. Não existiam vídeos de unboxing, avaliações na internet ou fotografias em alta resolução mostrando cada detalhe do produto. Muitas vezes, tudo o que uma criança conhecia era a imagem impressa na caixa, um anúncio visto em alguma revista ou alguns segundos de propaganda na televisão. O restante ficava por conta da imaginação.

Para quem ganhou um brinquedo Hering naquela época, pouco importava a história da empresa ou o tamanho da fábrica. Era apenas um brinquedo novo. Um presente de aniversário, uma surpresa de Natal ou aquele objeto desejado durante meses diante de uma vitrine. Décadas depois, porém, esses mesmos brinquedos passaram a ter outro significado. Tornaram-se registros de uma indústria que mudou profundamente e de empresas que, em muitos casos, desapareceram.

🔥 O incêndio que atingiu a fábrica

Em 1979, a história da Hering foi marcada por um grande incêndio em suas instalações industriais em Blumenau. O fogo atingiu a fábrica e provocou enormes prejuízos, representando um duro golpe para uma empresa que havia construído durante décadas uma importante estrutura de produção. Em uma indústria, uma tragédia desse tamanho não significa apenas perder paredes ou produtos que estavam no estoque. Máquinas, ferramentas, matérias-primas, documentos e equipamentos desenvolvidos ao longo de anos também podem desaparecer em poucas horas.

O incêndio tornou-se um episódio marcante na trajetória da Hering, mas a história da empresa não terminou ali. A produção foi retomada e a marca continuou ligada à fabricação de instrumentos musicais, passando posteriormente por mudanças de controle e por novas fases empresariais. A atividade relacionada aos brinquedos, entretanto, acabou ficando como parte de um período específico de sua história, e justamente por isso seus produtos se tornaram cada vez mais interessantes para colecionadores e pesquisadores da indústria brasileira.

🔎 Quando um brinquedo antigo vira uma pequena descoberta

Durante muito tempo, brinquedo velho era apenas brinquedo velho. Quando quebrava, ia para o lixo. Quando a criança crescia, era dado para um irmão, primo ou vizinho. Pouquíssimas famílias guardavam embalagens, manuais e catálogos imaginando que, décadas depois, alguém teria interesse em pesquisar quem havia fabricado aquele produto. Por isso, encontrar hoje um brinquedo Hering conservado, principalmente acompanhado da caixa original, pode ser uma verdadeira descoberta.

Cada exemplar ajuda a contar um pedaço da história. O logotipo impresso na embalagem, o endereço da fábrica, o material utilizado, o desenho do brinquedo e até as instruções de uso revelam informações sobre a época em que ele foi produzido. Para os colecionadores, não se trata apenas de possuir um objeto raro. Existe também o prazer de descobrir a história por trás dele, identificar o período de fabricação e, muitas vezes, encontrar outras pessoas que tiveram aquele mesmo brinquedo na infância.

É curioso pensar que objetos fabricados aos milhares podem se tornar raros simplesmente porque ninguém imaginava que deveriam ser preservados. Foram feitos para brincar, e foi exatamente isso que aconteceu. Caíram no chão, perderam peças, foram esquecidos no quintal, passaram de uma criança para outra e desapareceram. Os poucos que sobreviveram tornaram-se pequenas cápsulas do tempo.

❤️ A fábrica de gaitas que também ajudou a fabricar memórias

A história da Brinquedos Hering é um daqueles capítulos menos conhecidos da indústria brasileira de brinquedos. Uma empresa que começou produzindo gaitas de boca em Blumenau, cresceu, conquistou espaço no mercado de instrumentos musicais e, durante parte de sua trajetória, também colocou brinquedos nas lojas e nos quartos de milhares de crianças.

Talvez você nunca tenha ouvido falar da Brinquedos Hering. Talvez conheça o nome apenas pelas gaitas. Ou talvez aconteça algo muito mais interessante: você pode olhar para a fotografia de um de seus brinquedos e perceber que já teve um deles, brincou na casa de algum amigo ou passou anos vendo aquele objeto guardado na casa dos avós sem nunca saber quem o fabricava.

E essa é uma das coisas mais bonitas dos brinquedos antigos. As fábricas mudam, as empresas desaparecem, os prédios são transformados e as pessoas seguem suas vidas. Mas alguns brinquedos sobrevivem.

Às vezes dentro de uma caixa esquecida no alto de um armário.

Até que alguém encontra, tira a poeira e pergunta:

“Quem fabricou isso?”

E uma história inteira começa novamente.